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Palacete Severo: uma casa histórica renascida no Porto

Depois de semanas marcadas por tempestades em todo o país, chegámos ao Porto num raro dia de sol de inverno. Foi nesse cenário que atravessámos os jardins do Palacete Severo, antiga residência do arquiteto Ricardo Severo hoje transformada em boutique hotel. Entre património recuperado, gastronomia de autor e um spa pensado para desacelerar, a estadia revelou-se uma viagem pela história, pela memória e pelos sentidos.

 

Durante décadas passou quase despercebido a quem atravessava a Rua Ricardo Severo, perto da Rotunda da Boavista. Atrás das árvores e do muro discreto permanecia uma das casas mais curiosas da arquitetura portuense do início do século XX. Hoje, depois de um processo de recuperação minucioso, o Palacete Severo renasceu como boutique hotel de cinco estrelas, devolvendo vida a um edifício que sempre foi pensado como uma declaração de amor.

 

 

A história desta casa começa no início do século passado. O palacete foi projetado por Ricardo Severo, figura singular da cultura portuguesa. Arquiteto, engenheiro, arqueólogo e escritor, foi também um pensador que defendia uma arquitetura profundamente ligada à identidade nacional. Quando regressou do Brasil, após anos de exílio, decidiu construir esta casa no Porto para viver com a mulher, Francisca Dumont. Era mais do que uma residência. Era um manifesto arquitetónico.

Com cerca de 120 anos de história, o edifício renasceu em 2024 pela mão de um casal francês apaixonado pelo património e pela cultura portuguesa. O projeto recuperou cuidadosamente os elementos originais e transformou a antiga casa senhorial num hotel intimista com apenas vinte quartos e suítes, distribuídos entre o palacete histórico e um edifício contemporâneo construído no jardim.

 

 

A intervenção procurou preservar a identidade do lugar. Nos três pisos da casa principal sobrevivem vitrais coloridos, azulejos decorativos, tetos trabalhados em madeira e detalhes de serralharia que contam fragmentos da vida do seu criador. A decoração contemporânea ficou a cargo do designer Paulo Lobo, responsável pelo desenho do mobiliário e pelo equilíbrio entre passado e presente. O resultado é um ambiente que conserva o carácter doméstico da antiga residência, mas incorpora o conforto e a tecnologia de um hotel contemporâneo.

 

 

 O jardim, pontuado por árvores antigas e fontes de água, reforça a sensação de refúgio urbano. Mesmo estando a poucos minutos do centro da cidade, a atmosfera é de tranquilidade. Foi ali que começámos a perceber a filosofia do projecto. Não se trata apenas de um hotel, mas de uma casa que continua a viver através da arte, da gastronomia e da memória.

 

 

Durante a nossa estadia ficámos no quarto que outrora pertenceu aos donos da casa, Ricardo Severo e Francisca, um espaço que mantém a elegância tranquila da antiga residência. A sensação é curiosa: dormir num lugar onde a história ainda parece presente nos detalhes.

 

 

Gastronomia entre tradição e memória

A oferta gastronómica do Palacete Severo divide-se entre dois restaurantes, ambos liderados pelo chef Tiago Bonito, conhecido pelo trabalho no Largo do Paço, em Amarante, onde manteve uma estrela Michelin durante vários anos.

O primeiro contacto aconteceu ao almoço, no Bistrô Severo, espaço mais informal instalado num pátio interior revestido de azulejos e mosaicos geométricos. O ambiente era animado e o restaurante estava completamente cheio, sinal de que o espaço já conquistou o público portuense.

 

 

Escolhemos o menu executivo. O almoço começou com um creme de espargos com crème fraîche e cerefólio, equilibrado e delicado. Seguiu-se filete de dourada sauté com batata ao sal, legumes e molho de vinho branco, um prato simples e bem executado que valoriza a qualidade do produto.

 

 

 À noite, a experiência ganha uma dimensão mais narrativa no restaurante Éon, o espaço gastronómico do hotel. O nome remete para a ideia de um período de tempo imenso, quase infinito, e o conceito do menu segue essa lógica: uma viagem pelas memórias do chef Tiago Bonito.

Tudo começa de forma inesperada. À mesa chega um envelope com a frase "no intervalo de um éon a memória vive". No interior, um postal apresenta o menu e explica o conceito da noite. Cada prato representa um lugar, uma recordação ou um momento marcante da vida do chef.

 

 

Experimentámos o menu completo de catorze momentos com harmonização vínica, conduzida pelo sommelier Victor Alves. O primeiro pairing chega com Quinta do Rol Grande Reserva Rosé Método Clássico, um espumante que acompanha os primeiros momentos do menu.

A sequência inicia-se com referências a diferentes geografias portuguesas que marcaram o percurso do chef. Surge a castanha martainha com vinho Madeira e abeto, seguida de truta de Boticas com anchovas e yuzu kosho e frango piri-piri com alho e limão. Três pratos que evocam Trás-os-Montes, Coimbra e Algarve, numa espécie de mapa gastronómico pessoal.

O percurso continua com o vinho Desordem 2012 branco, da Bairrada, que acompanha uma sequência dedicada ao mar. Chegam à mesa sapateira com gamba vermelha e molho XO, caviar e cebola, lula com miso e manteiga queimada, atum rabilho e ostra com pepino, maçã e wasabi. Cada prato explora diferentes intensidades e texturas do universo marítimo, mantendo sempre uma leitura contemporânea.

A harmonização prossegue com Mestre Daniel XXVI Vinho de Talha 2023, um branco que acompanha pratos de maior intensidade como foie gras e enguia fumada com marmelo e Moscatel do Douro. Entre estes momentos surge também o pão e brioche de fermentação natural, servido com manteiga dos Açores e azeite virgem extra biológico da Quinta do Noval, um intervalo simples que valoriza produto e técnica.

 

 

Segue-se Casa Cadaval 1648 Muge, vinho que acompanha dois dos pratos mais marcantes da noite: pescada de anzol com pil-pil, salsa e cogumelos e carabineiro do Algarve com harissa, abóbora e porco bísaro, pratos que revelam maior intensidade e complexidade.

Para o prato de carne chega à mesa Parapente 2021, de Valpaços, que acompanha novilho nacional com beringela, molho béarnaise e trufa.

O percurso termina com Moscatel Roxo Costa a Costa, da família Horácio Simões, servido com a sobremesa de queijo de cabra com romã, especiarias e noz, antes de um momento final intitulado Memórias de infância, onde pipocas, caramelo e algodão doce recriam sabores familiares. O percurso termina com petit fours.

Ao longo da refeição, a apresentação dos pratos e a escolha da loiça revelam um cuidado particular. Cada elemento visual parece pensado para reforçar a narrativa do menu, onde gastronomia e memória caminham lado a lado.

 

Um spa dedicado ao bem-estar

 

 

A experiência no Palacete Severo não se limita à gastronomia. No edifício construído nas traseiras do jardim encontra-se o Spa Severo, um espaço pensado para desacelerar.

O spa inclui banho turco, sala de haloterapia com sal dos Himalaias, ginásio aberto 24 horas e piscina exterior aquecida de água salgada.

Durante a tarde experimentámos uma massagem cranioencefálica, realizada pela terapeuta Susana, uma das profissionais da equipa que inclui ainda Elisa, Telma e Lúcia. O tratamento concentra-se nas zonas cervical e craniana, ajudando a aliviar a tensão acumulada e a estimular o relaxamento profundo.

 

 

Os tratamentos utilizam produtos da marca francesa Olivier Claire, especializada em cuidados de pele de base vegetal e elevada concentração de ativos naturais. Entre as opções disponíveis encontram-se tratamentos faciais antienvelhecimento, rituais corporais com velas hidratantes, massagens com pedras quentes ou programas completos de bem-estar.

 

Arte, património e hospitalidade

 

 

A arte ocupa também um lugar central no projeto. O hotel acolhe exposições regulares da Perspective Galerie, galeria parisiense ligada aos proprietários, criando uma ponte cultural entre Paris e o Porto. As obras encontram-se espalhadas pelos corredores, salas e quartos, transformando o hotel numa pequena galeria viva.

Tudo isto contribui para a identidade particular do Palacete Severo. Um hotel onde o património não surge como cenário decorativo, mas como parte ativa da experiência.

 

 

Num Porto onde a hotelaria de luxo continua a reinventar edifícios históricos, o Palacete Severo distingue-se pela forma como preserva a alma da casa original. Aqui, a arquitetura, a arte e a gastronomia convivem com naturalidade, criando uma experiência que se vive sem pressa.

Entre os vitrais centenários, os jardins silenciosos e uma cozinha que transforma recordações em sabores, este antigo palacete volta a cumprir o propósito para que foi construído: ser uma casa pensada para o prazer de habitar.