No MarLuso, em Sesimbra, a cozinha portuguesa contemporânea encontra no Atlântico e no produto local o seu principal ponto de partida.
O MarLuso, restaurante do Sesimbra Oceanfront Hotel, afirma-se hoje como uma das propostas gastronómicas mais consistentes da vila piscatória. Longe de correr atrás de tendências efémeras, o espaço liderado pelo chef José Faustino assume uma cozinha de matriz portuguesa, assente no produto, no território e numa leitura contemporânea da tradição.




A Turbilhão teve a oportunidade de experimentar in loco este restaurante virado para o mar durante um almoço que reuniu vários jornalistas num ambiente descontraído, sem formalismos. À mesa, cruzaram-se percursos profissionais, memórias partilhadas e até o reencontro inesperado com um antigo colega de redacção, daqueles que a profissão afasta e, por vezes, a gastronomia volta a aproximar.
Um conceito que amadureceu
Inaugurado em 2024, o MarLuso nasceu inspirado na herança marítima portuguesa e na ideia de viagem, evocando a figura do navegador quinhentista Sebastião Rodrigues Soromenho. Com o tempo, o conceito foi-se depurando. Hoje, a proposta está mais ancorada na portugalidade, sem perder sofisticação nem identidade.
“O que queremos é trazer mais Portugal à mesa. Mais mar, mais autenticidade, mais ligação ao que nos é próximo”, explica o chef José Faustino. “Respeitamos os produtos locais e as receitas tradicionais, mas trabalhamos com técnicas actuais, com cuidado e sem descaracterizar.”




A carta reflecte essa abordagem. Peixe da nossa costa, algum diálogo com o Alentejo vizinho, sabores reconhecíveis e execução precisa. Não há exercícios de estilo gratuitos nem fusões forçadas.
O espaço acompanha a filosofia
A decoração segue a mesma linha de contenção. Materiais naturais, tons claros, referências subtis ao mar e uma atmosfera luminosa, reforçada pela vista sobre o Atlântico. O ambiente é contemporâneo, mas acolhedor, pensado para deixar o protagonismo no prato e no serviço.




À mesa, o essencial bem feito
O almoço começou com o couvert da casa, onde se destaca o pão de trigo acompanhado por manteiga dos Açores e dip de tremoços. Um início simples, mas coerente com o discurso do restaurante.
Seguiu-se a salada de grão-de-bico com bacalhau e ovo cozido. Um prato de inspiração clássica, tratado com equilíbrio. O grão mantém textura, o bacalhau surge no ponto certo e o tempero respeita o conjunto, sem excessos.








Nos pratos principais, o mar assume o centro da narrativa. Os filetes de robalo grelhados com molho de bulhão pato e massada de coentros confirmam a solidez da proposta. O peixe chega suculento, o molho complementa sem dominar e a massada cumpre o seu papel com identidade própria.
O polvo grelhado à lagareiro, servido com feijão vermelho e couve estufada, é outro bom exemplo de cozinha portuguesa bem interpretada. O polvo está macio, bem grelhado, com sabor limpo e execução segura.
A sobremesa, uma tarte crocante de maçã com gelado de baunilha, fecha o almoço de forma equilibrada e sem artifícios desnecessários.
Uma proposta consistente
O MarLuso não procura ser um restaurante de moda nem vive de novidades constantes. A sua força está na coerência. Cozinha portuguesa contemporânea, produto bem tratado, serviço atento e um enquadramento que faz sentido no território onde se insere.
Num almoço marcado pela conversa fácil e pelo prazer de estar à mesa, ficou clara a maturidade do projecto. Em Sesimbra, o MarLuso afirma-se como um restaurante que sabe quem é e para quem cozinha. E isso, no actual panorama gastronómico, continua a ser um argumento forte.