Do século XVI à alta relojoaria actual, a história do tempo no feminino é mais antiga e mais determinante do que se imagina. Conheça os momentos que moldaram essa evolução.
Muito antes de o relógio de pulso se tornar instrumento militar ou símbolo masculino, o tempo já ocupava lugar no universo feminino. De pendentes ornamentais do século XVI ao primeiro relógio de pulso documentado em 1810, a presença das mulheres na história da relojoaria não é periférica.




Quando o tempo era jóia
Desde o século XVI, existiam relógios portáteis usados por mulheres da aristocracia europeia. Não eram relógios de pulso, mas pequenas peças integradas em pendentes, medalhões ou presas à cintura. Muitas vezes ricamente decorados com esmalte, gravações ou pedras preciosas, funcionavam sobretudo como demonstração de estatuto social.




No século XVIII, possuir um relógio significava acesso a tecnologia sofisticada. No universo feminino aristocrático, esse objecto assumia frequentemente dimensão ornamental. A legibilidade do mostrador nem sempre era prioridade. O valor estava no trabalho artístico e na raridade mecânica. O relógio era, acima de tudo, jóia.
Relógios Pendentes no Século XXI
1810: a encomenda que muda a história
Em 1810, Abraham-Louis Breguet recebeu uma encomenda singular: um relógio repetição de minutos para ser usado na bracelete, solicitado por Caroline Murat, Rainha de Nápoles e irmã de Napoleão Bonaparte. A peça foi concluída em 1812 e está registada nos arquivos da manufactura. Trata-se do primeiro relógio de pulso oficialmente documentado na história da relojoaria.
Além de ser um relógio para ser usado no pulso, esta peça destacava-se ainda por não se tratar de um simples ornamento. Integrava complicação de repetição de minutos, mecanismo que permite indicar as horas através de sinal sonoro, solução técnica de elevada complexidade para a época. O formato era oval e a peça estava montada numa bracelete, inicialmente descrita como composta por cabelo entrançado com fios de ouro.
Esta encomenda representa uma ruptura clara. O relógio deixa de estar pendente e passa a ser fixado directamente no pulso. Mais do que jóia, passa a ser instrumento pessoal.
Antes mesmo da encomenda de 1810, o nome de outra mulher estava já ligado a um dos maiores desafios técnicos da relojoaria do século XVIII. Em 1783, foi encomendado a Abraham-Louis Breguet um relógio destinado a Marie Antoinette, Rainha de França. A peça, conhecida como n.º 160 ou "Marie Antoinette", deveria integrar todas as complicações conhecidas à época, sem limitações de tempo ou custo.
Tratava-se de um relógio de bolso de grande complexidade, cuja execução se prolongou durante décadas e só foi concluída em 1827, já após a morte da rainha e do próprio Breguet. Mais do que uma curiosidade histórica, este episódio demonstra que figuras femininas estiveram associadas, desde cedo, a encomendas que impulsionaram avanços técnicos significativos na alta relojoaria.
Curiosidades pouco conhecidas
A encomenda de 1810 está registada nos arquivos
O pedido de Caroline Murat está documentado nos registos históricos da Breguet, o que confere base factual sólida ao estatuto de primeiro relógio de pulso.
O formato oval tinha propósito estético e técnico
A caixa oval do modelo original não era apenas decorativa. Permitia melhor adaptação ao pulso e diferenciava-se claramente do relógio de bolso tradicional.
O relógio de bolso era considerado mais "sério"
Durante o século XIX, muitos homens viam o relógio de pulso como peça frívola ou excessivamente associada à joalharia feminina.
A guerra redefiniu o gesto de consultar as horas
A necessidade de coordenação militar rápida tornou impraticável retirar um relógio do bolso. O pulso tornou-se solução funcional.
A relojoaria feminina contemporânea recupera complexidade histórica
Várias manufacturas voltaram a integrar turbilhões, repetição de minutos e calendários perpétuos em modelos femininos, contrariando décadas de simplificação mecânica.
O paradoxo do século XIX
Apesar deste episódio pioneiro, ao longo do século XIX o relógio de pulso permaneceu maioritariamente associado ao universo feminino. Para os homens, o relógio de bolso continuava a ser a norma. Era considerado mais adequado ao traje masculino e ao protocolo social da época.
Entretanto, os relógios de pulso usados por mulheres eram frequentemente pequenos, delicados e integrados em peças de joalharia. A função prática coexistia com a dimensão decorativa.
A viragem chega com a guerra
A verdadeira massificação do relógio de pulso no masculino ocorre apenas no início do século XX, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial. A necessidade de consultar as horas rapidamente, sem recorrer ao bolso, tornou o relógio de pulso solução prática nas trincheiras.
A partir desse momento, o relógio de pulso ganha legitimidade funcional junto dos homens e inicia o percurso que o levaria a tornar-se dominante. Curiosamente, aquilo que começou no pulso de uma mulher aristocrata consolidou-se mais tarde como instrumento militar masculino.
A afirmação técnica no presente
Ao longo do século XX, a relojoaria feminina foi frequentemente tratada como segmento secundário, com ênfase estética e menor complexidade mecânica. Essa leitura tem vindo a ser revista de forma consistente nas últimas duas décadas.
A herança histórica da encomenda de 1810 mantém-se viva na colecção Reine de Naples da Breguet, que preserva o formato oval e integra calibres mecânicos elaborados, incluindo fases da lua e complicações de elevada exigência técnica. A referência ao modelo original é verdadeiramente estrutural.
No universo da joalharia relojoeira, a Bulgari consolidou o Serpenti como um dos ícones mais reconhecíveis do design feminino do século XX. Lançado em 1948, evoluiu de peça essencialmente ornamental para incorporar movimentos mecânicos e soluções técnicas cada vez mais sofisticadas, mantendo a identidade escultórica da bracelete envolvente.








A Van Cleef & Arpels demonstrou que a alta relojoaria feminina pode também ser território de complicação poética. No Lady Arpels Pont des Amoureux, a indicação retrógrada das horas e dos minutos é assegurada por um mecanismo complexo que faz convergir duas figuras no mostrador ao meio-dia e à meia-noite. A dimensão narrativa assenta numa base mecânica exigente.




Também a Vacheron Constantin tem vindo a afirmar a legitimidade técnica do segmento feminino com colecções como a Égérie, equipada com calibres automáticos desenvolvidos internamente e acabamentos ao nível da alta relojoaria clássica. A estética é distintiva, mas o conteúdo mecânico não é secundário.
Por sua vez, a Cartier continua a reinterpretar modelos históricos como o Baignoire, Panthère ou o Tank em versões que integram movimentos mecânicos e proporções pensadas para o pulso feminino, mantendo a coerência formal que atravessa mais de um século de criação.






Estes exemplos demonstram que a relojoaria no feminino deixou definitivamente de ser entendida como mera extensão decorativa. Se no século XVIII o relógio era sobretudo jóia e, em 1810, já integrava alta complexidade técnica, o presente confirma que essa dimensão mecânica não é excepção histórica, mas parte integrante da evolução do tempo no feminino.