Uma das complicações mais comuns e úteis em relojoaria é a função de calendário, que se declina em vários graus de dificuldade, dando origem a peças do tempo mecânicas verdadeiramente artísticas e desafiantes.
A noção de calendário terá nascido há mais de 6000 anos, no antigo Egipto. Na época, as vidas dos nossos antepassados eram regidas pelo ciclo do dia e da noite, das fases da Lua e da passagem das estações. Assim, a história do calendário começou com a astronomia, com a Terra, o Sol e a Lua, servindo de ligação entre a humanidade e o cosmos.
Criados com o intuito de organizar unidades de tempo para satisfazer as necessidades e preocupações da sociedade, os calendários forneceram a base para o planeamento agrícola e da caça, para os ciclos de migração, a adivinhação e prognóstico e para a manutenção dos ciclos de eventos religiosos e civis.
O calendário deve reflectir o ano tropical, ou seja, o tempo que o sol demora a regressar à mesma posição em relação aos equinócios (os dias do ano em que o dia dura o mesmo que a noite) e aos solstícios (o dia mais curto e o mais longo do ano). Contudo, o ano tropical não é divisível por um número de dias exacto, sendo igual a aproximadamente 365,24219 dias. Para solucionar esta questão, as primeiras civilizações utilizavam um ano de duração variável, onde assinalavam as datas importantes. Porém, os anos de duração variável rapidamente se mostraram pouco satisfatórios, à medida que as civilizações se foram tornando mais complexas.


O nascimento do calendário moderno
Tal como em tantas outras coisas, temos que agradecer aos romanos pelo calendário moderno. Nos primórdios, este seguia um ciclo lunar e tinha apenas 10 meses, num total de 355 dias. Este primeiro calendário romano resolvia o facto de ser mais de uma semana mais curto do que o ano tropical inserindo periodicamente um mês adicional – o mensis intercalaris -, introduzido através de um decreto governamental.
Graças à intervenção de Júlio César, o calendário começou, finalmente, a adquirir a forma que tem hoje. Este imperador, percebendo que as festas romanas em comemoração da estação mais florida do ano, marcadas para Março (que era o primeiro mês do ano), calhavam em pleno Inverno, determinou que fossem acrescentados dois meses ao ano, deslocando assim Janeiro e Fevereiro para o início do ano. Com estas alterações, o calendário anual passou a ter 12 meses que somavam 365 dias. Embora o calendário Juliano funcionasse relativamente bem, continha erros suficientes para que a data do equinócio vernal (o primeiro dia de Primavera) se tivesse desviado cerca de dez dias do equinócio astronómico no início do século XVI.
Com o intuito de assegurar que a data do calendário coincidisse correctamente com a do equinócio, o Papa Gregório voltou a calcular a duração do ano e desenvolveu um novo calendário baseado num ano de 365,2425 dias. O resultado foi um calendário de 365 dias, apenas 6 horas mais curto do que o ano tropical. Para que este se mantivesse sincronizado com o ano real, foi adicionado um dia extra a cada quatro anos, o 29 de Fevereiro. A versão gregoriana do calendário Juliano demonstrou, assim, ser um calendário civil fiável e correcto e, hoje, utiliza-se praticamente à escala universal.


O calendário no relógio mecânico
Os relógios mecânicos são maravilhas da microengenharia e um movimento de complicação apresenta inúmeros desafios aos mestres relojoeiros, adicionando interesse e valor ao relógio. Uma das complicações mais comuns e úteis em relojoaria é a função de calendário, que se declina em vários graus de dificuldade.
O mais simples dá pelo nome de calendário simples e tem que ser ajustado cinco vezes ao ano (nos meses que não têm 31 dias). Já o calendário anual aumenta o grau de complexidade: sabe em que mês está e quantos dias tem que ter cada mês, à excepção do mês de Fevereiro em anos bissextos. Como tal, este tipo de calendário apenas tem que ser ajustado uma vez de quatro em quatro anos.
Finalmente, e no topo da escala, encontra-se o calendário perpétuo que, além de saber em que mês está, sabe também o ano e, inclusive, se se trata ou não de um ano bissexto. Neste caso, saberá que tem que juntar o 29 de Fevereiro ao calendário.
Os calendários anuais apareceram nos chamados “grandes relógios” em 1700, sendo que os simples, e também os anuais, foram introduzidos nos relógios de bolso praticamente aquando do seu nascimento. Contudo, o primeiro relógio de bolso com calendário perpétuo nasceu do fértil engenho e hábeis dedos de Abraham-Louis Breguet, em 1795. Já a passagem desta complicação para o pulso aconteceu apenas em 1925, pela mão da Patek Philippe que, em 1941, produziria igualmente o primeiro relógio de pulso com calendário perpétuo produzido em série.