O PESO DO TEMPO: QUANDO O PATRIMÓNIO INSPIRA O FUTURO
Falar de património, na relojoaria, é falar de algo que vai muito além de uma estética vintage ou da reedição de um modelo antigo. É falar de uma herança acumulada de saber e de uma credibilidade construída ao longo de séculos. É um dos argumentos mais poderosos que uma manufactura pode actualmente apresentar.
Num momento em que a alta relojoaria enfrenta o desafio de inovar sem perder a sua identidade, o conceito de património continua a funcionar como uma âncora capaz de ligar séculos de saber ao presente. Está longe de ser uma fórmula mágica; na prática, essa herança só resulta quando é gerida com inteligência, e é preciso saber o que aproveitar do passado e quando reinterpretá-lo. As marcas que melhor o fazem encaram o heritage não como um arquivo de referências, mas como um laboratório de ideias – matéria-prima para criar algo novo.
Provavelmente ninguém o faz melhor do que a Cartier, que lançou a colecção Privé precisamente para reinterpretar as suas peças clássicas com técnicas modernas, como se percebe pela mais recente novidade, apresentada este ano durante a Watches & Wonders: o Cartier Tortue Monopoussoir Chronograph.




A caixa "tartaruga" remonta a 1912, quando a Maison já explorava formas que prefiguravam o Art Déco, muito antes de o movimento sequer existir enquanto conceito. É uma das mais antigas e reconhecíveis do portefólio da marca, a seguir ao Santos e ao Tank, e é marcada pela sua forma rectangular de lados arredondados, que evocam, de facto, a carapaça de uma tartaruga. Já o mostrador desta edição, marcado pelos índices perlados e pelo XII sobredimensionado, inspira-se mais nas reedições do final dos anos 1990, enquanto o calibre 1928 MC conta uma história muito particular: a complicação de cronógrafo monopulsante surgiu pela primeira vez num Tortue em 1928 – ano que dá nome ao movimento actual e que é também o cronógrafo mais fino que a Cartier alguma vez produziu, medindo apenas 4,3 mm de espessura. A caixa em platina mede 34,8 x 43,7 x 10,2 mm.
O Cabaret Tourbillon Honeygold da A. Lange & Söhne segue uma lógica muito semelhante, embora com um percurso totalmente diferente. A manufatura saxónica nasceu em 1845, mas passou várias décadas a fazer relógios indiferenciados sob o regime da Alemanha de Leste. Acabou por ser totalmente refundada em 1994 pelo último membro da família Lange, num processo pensado ao pormenor para recriar uma das melhores e mais exigentes manufaturas. O Cabaret foi um dos primeiros modelos nascidos dessa lógica – em 1997 – e apresentava uma complicação inédita: um turbilhão com "paragem de segundos", que permitia parar a gaiola do turbilhão para acertar o relógio com a precisão de um segundo. Este novo modelo, revelado em Maio de 2026, recupera esse feito com um novíssimo calibre L042.1, de corda manual e impressionantes 120 horas de reserva de marcha. A caixa em "ouro mel" é mais um exclusivo da Lange – uma liga em ouro com maior dureza e uma tonalidade intermédia entre o ouro rosa e o branco.
O mostrador foi esculpido no mesmo material e tratado a ródio negro, de forma a salientar os detalhes do ouro contra o fundo escuro. Caixa de 29,5 x 39,2 x 10,3 mm. Edição limitada a 50 peças.




Quando olhamos para a Breguet, percebemos que terá, muito provavelmente, o arquivo mais rico de toda a relojoaria – ou não fosse Abraham-Louis Breguet (1747–1823) considerado um dos maiores relojoeiros de sempre. Entre outras invenções, é-lhe atribuída a criação do turbilhão, dos primeiros mecanismos automáticos, do relógio de pulso original e da espiral que ganhou o seu nome e se tornou fundamental para melhorar a precisão na relojoaria. A sua obra é inspiração directa para a colecção Tradition, da qual o GMT 7067 de 2026 é a mais recente nterpretação. Oferece um duplo fuso horário num mostrador em esmalte grand feu verde degradé, com algarismos árabes, numa referência às relações da marca com os mercados otomanos no século XIX. O calibre 507 DRF, de corda manual, apresenta a hora local às 12 horas e a hora de origem às 8 horas, num sub-mostrador mais discreto. Caixa em platina 950, 40 mm de diâmetro e 12,1 mm de espessura.
Já a Van Cleef & Arpels está intimamente ligada às chamadas "complicações poéticas" – peças que combinam mestria relojoeira com uma narrativa artística baseada no universo dos contos de fadas ou na beleza da astronomia. É esse o espírito do Midnight Jour Nuit Phase de Lune, que combina pela primeira vez o display dia/noite com as fases da lua, complicação que a Van Cleef introduziu em 1929. Para criar este mecanismo foram necessários quatro anos de desenvolvimento, para conseguir integrar o disco das fases da lua – que roda em 24 horas, 16 minutos e 27 segundos – no disco de dia e noite, de 24 horas. No verso, a perspectiva inverte-se e temos a Terra vista da lua. Caixa em ouro branco de 42 mm.




A MÃO DE GÉRALD GENTA
A OMEGA escolheu 2026 para regressar às origens mais nobres da Constellation com o Observatory – um nome carregado de significado histórico. Nos anos 1950 e 1960, os Constellations eram submetidos a testes rigorosos nos observatórios astronómicos de Genebra e Neuchâtel, onde os certificados de cronometria serviam como prova máxima de precisão mecânica. Este modelo recupera essa ligação que com o tempo se foi diluindo, e passa agora pelo crivo da certificação Master Chronometer, desenvolvida pela própria OMEGA em conjunto com o Instituto Federal de Metrologia suíço (METAS). É, provavelmente, a certificação mais exigente da actualidade, e para a conseguir num modelo de apenas dois ponteiros foi necessário desenvolver um novo processo acústico para verificar a precisão. Visualmente, o Observatory recupera também a inspiração estética dos modelos originais, com o mostrador convexo e tridimensional "pie-pan" e as hastes "dog-leg". Dois calibres automáticos – 8914 e 8915 – e caixa de 39,4 mm disponível em diferentes tipos de ouro, aço e platina.
Estes modelos foram criados com a assinatura de Gérald Genta, um dos mais prolíficos designers suíços, responsável, entre outros, pelo Royal Oak, da Audemars Piguet, pelo Nautilus, da Patek Philippe, e pelo Ingenieur da IWC Schaffhausen. Três dos mais influentes relógios desportivos da segunda metade do século XX, cuja característica mais marcante era apresentarem uma caixa e bracelete perfeitamente integradas, em aço.




Em 2023, a IWC Schaffhausen decidiu ressuscitar o desenho original do Ingenieur tal como tinha sido pensado por Genta, num regresso muito aclamado. Mas a marca de Schaffhausen tinha também um historial de décadas na relojoaria em cerâmica, muito antes de o material se tornar moda, e este ano decidiram juntar esses dois universos num mesmo modelo: um Ingenieur Automatic 42 com a caixa e a bracelete construídas em cerâmica verde-oliva escura. E parece que não foi nada simples construir os elos da bracelete neste material. Uma proposta simultaneamente fiel ao espírito técnico do Ingenieur original e inequivocamente actual. Calibre 82110, com 60 horas de reserva e caixa de 42 mm.
O Overseas da Vacheron Constantin faz igualmente parte desse grupo de desportivos dos anos 1970, apesar de não ter assinatura de Genta. Mas a novidade deste ano – o Overseas Self-Winding Ultra-Thin, com o novo calibre 2550 – está claramente entre os modelos mais aclamados do sector. Para o compreender é necessário algum contexto: o calibre 1120, que equipou o Overseas ultraplano durante quase seis décadas, derivava do mesmo movimento (920) da Jaeger-LeCoultre que estava na base dos calibres do Nautilus e do Royal Oak. Era um dos movimentos mais reverenciados da história da relojoaria automática, mas este novo calibre 2550 cria, finalmente, uma versão totalmente nova e moderna desse movimento, com micro-rotor, duplo barrilete e ainda mais fino – 2,4 mm. Para essa espessura, oferece umas incríveis 80 horas de reserva de marcha. O Overseas é agora o mais fino e surge numa caixa em platina de 39,5 mm, com mostrador salmão, em edição limitada a 255 peças.






Vamos continuar na mesma década de 1970, porque enquanto iam surgindo todos estes desportivos em aço, a Piaget decidiu quebrar a corrente e introduzir o Polo em ouro. O look esportivo era o mesmo, mas numa alternativa mais valiosa. O Polo Signature Date de 2026 recupera esse espírito do Polo 79, trazendo os hipnóticos godrons no mostrador, nas versões prata ou azul Piaget – uma cor profunda e saturada que a marca utiliza desde esses anos. Disponível em 42 mm e 36 mm, em aço inoxidável e ouro rosa.
Na Blancpain, o Ladybird Colors Nude Moka continua uma tradição iniciada em 1956 com o menor relógio mecânico automático do mundo, à época. O seu nascimento está intimamente
ligado a uma figura ímpar: Betty Fiechter, a primeira mulher a liderar uma manufatura, após ter tomado as rédeas da Blancpain em 1933, sempre com a convicção de que as mulheres mereciam relógios pensados especificamente para elas, com a mesma seriedade técnica dos relógios masculinos. Essa filosofia continua a definir a colecção Ladybird Colors na actualidade. O Nude Moka de 2026 traz um tom muito atual, inspirado no couro, na caxemira e na lã natural. A função de fases da lua, com a face da Lua em miniatura, e os pequenos segundos às 6 horas elevam a componente técnica do modelo e permitem dar um toque de joalharia. Calibre automático manufatura 1163L, com 100 horas de reserva de marcha. Caixa de 34,9 mm em ouro.




O que une todos estes relógios – de origens e públicos tão diferentes – é a mesma convicção partilhada: a história não é um peso a carregar, mas uma vantagem competitiva que nenhum recém-chegado pode imitar. Num mercado saturado de novidades, o verdadeiro luxo é ter algo genuíno para contar, e tempo suficiente para o provar.