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“A ARTE SÓ GANHA VERDADEIRO SIGNIFICADO QUANDO ENTRA EM DIÁLOGO COM AS PESSOAS”

“A ARTE SÓ GANHA VERDADEIRO SIGNIFICADO QUANDO ENTRA EM DIÁLOGO COM AS PESSOAS”

ENTRE ARTE, DESIGN E TRABALHO ARTESANAL, A OFICINA MARQUES TEM VINDO A CONSTRUIR UM UNIVERSO CRIATIVO SINGULAR, RECONHECIDO PELA FORTE COMPONENTE NARRATIVA E  PELA VALORIZAÇÃO DO FAZER MANUAL. FUNDADO POR GEZO MARQUES E JOSÉ APARÍCIO GONÇALVES, COM QUEM A TURBILHÃO CONVERSOU, O ATELIER SOMA COLABORAÇÕES COM ALGUMAS DAS MAIS PRESTIGIADAS MARCAS E INSTITUIÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS, AFIRMANDO-SE COMO UMA REFERÊNCIA NA FORMA COMO CRUZA TRADIÇÃO, CONTEMPORANEIDADE E IDENTIDADE PORTUGUESA.

 

A Oficina Marques nasce da visão de uma dupla criativa que se apresenta sob o mote “Tusa de Viver”. Como se constrói esse diálogo criativo a dois e de que forma o cruzamento de diferentes disciplinas contribui para o resultado final?

A Oficina Marques nasce de um diálogo permanente entre duas pessoas que partilham uma enorme curiosidade pelo mundo e uma vontade constante de materializar histórias. Apesar de  termos percursos diferentes, encontramos um território comum na forma como olhamos para a criação: como um exercício de descoberta, de experimentação e de partilha.

A nossa prática atravessa naturalmente a arte, o design e o trabalho artesanal. Não vemos estas disciplinas como compartimentos estanques, mas como ferramentas complementares que utilizamos para dar forma a uma visão única. Há projectos que pedem uma abordagem mais próxima da arte, outros do design ou da cenografia, mas todos partem do mesmo universo criativo e da mesma linguagem visual.

 

E como se traduz essa filosofia de vida nos projectos que desenvolvem?

A "Tusa de Viver" é precisamente o motor desse processo. É uma celebração da vida em toda a sua complexidade, com os seus momentos de alegria e também com as suas imperfeições. Essa visão manifesta-se nas peças que criamos, na forma como valorizamos as marcas do tempo nos materiais e na vontade de construir objectos e ambientes que estabeleçam uma ligação emocional com quem os vive.

 

Como nasce a vossa linguagem visual que se converte numa assinatura criativa, reconhecível tanto em projectos artísticos como em colaborações com marcas?

A nossa linguagem nasceu da necessidade de criar um código que permitisse reconhecer o nosso trabalho independentemente da escala, do material ou do contexto. Como trabalhamos com meios muito diversos, sentimos desde cedo a necessidade de definir um território visual coerente.

Esse território encontra o seu fio condutor nos cinco temas que estruturam o universo da Oficina Marques: Mar, Mato, Corpo, Fé e Lisboa. São eles que servem de base para interpretar todas as histórias que contamos, sejam elas uma colecção de objectos, uma instalação artística ou uma colaboração com uma marca.

A assinatura da Oficina Marques está nessa combinação entre narrativa, manualidade e materialidade. Gostamos de criar peças que tenham uma leitura imediata, mas que revelem novas camadas à medida que são observadas. Existe sempre uma tensão entre o familiar e o inesperado, entre o objecto encontrado e a nova história que lhe damos para contar.

 

O vosso trabalho cruza arte, design, cenografia, escultura, instalação e produção artesanal. Como definem, hoje, a identidade da Oficina Marques?

Definimo-nos como um estúdio multidisciplinar de arte e design, profundamente ligado ao fazer manual. Somos artistas relacionais, no sentido em que criamos para os outros e acreditamos  que a arte só ganha verdadeiro significado quando entra em diálogo com as pessoas.

 

SOUL GARDEN, Painel em madeira para o restaurante Soul Garden no hotel Corinthia Lisboa. Projeto arquitetura Spacegram.

 

A identidade da Oficina Marques constrói-se precisamente nesse cruzamento entre diferentes disciplinas. Interessa-nos tanto a criação de uma peça única como a possibilidade de desenvolver um objecto funcional ou um projecto de grande escala. O que une tudo isso é a vontade de transformar matéria em narrativa. Mais do que uma disciplina específica, interessa-nos a capacidade de criar experiências, objectos e ambientes que carreguem emoção, memória e significado.

 

Num momento em que muitos criadores procuram revisitar tradições artesanais, o que distingue a vossa abordagem à herança cultural portuguesa e ao imaginário português?

O nosso interesse pela cultura portuguesa não passa pela reprodução literal dos seus símbolos mais conhecidos. Procuramos antes olhar para as camadas menos óbvias da nossa identidade cultural, para as histórias, influências e cruzamentos que construíram Portugal ao longo dos séculos. No caso de Lisboa, por exemplo, raramente recorremos aos códigos visuais mais evidentes. Interessa-nos descobrir aquilo que está escondido, aquilo que resulta do encontro de culturas, geografias e tempos diferentes.

 

Existe uma responsabilidade acrescida quando essas referências “viajam” por contextos internacionais?

Sentimos, sobretudo, a responsabilidade de as representar de forma autêntica e de partilhar uma visão contemporânea de Portugal, viva e em constante transformação da cultura que nos inspira.

Portugal possui uma tradição extraordinária de saber-fazer, mas também uma nova geração de criadores que têm sabido reinterpretar esse património de forma contemporânea. Essa combinação entre tradição e inovação torna-se particularmente relevante num contexto internacional que cada vez mais valoriza o trabalho artesanal e dos processos que envolvem tempo, conhecimento e intervenção humana. Acreditamos, também, que as pessoas procuram cada vez mais histórias verdadeiras. E o trabalho artesanal, quando é genuíno, tem a capacidade de tornar visível o lado humano da criação.

 

 

A colaboração com a Hermès representou um momento particularmente visível na vossa internacionalização. O que significou receber esse convite?

Foi um momento de grande satisfação, porque representou o reconhecimento de uma linguagem que fomos construindo ao longo dos anos de forma muito consistente e orgânica.

Mais do que a dimensão internacional da marca, interessou-nos a possibilidade de estabelecer um diálogo entre universos criativos. Acreditamos que as melhores colaborações acontecem quando existe respeito mútuo pela identidade de cada parte e liberdade para desenvolver uma visão própria.

Levar o universo da Oficina Marques para um contexto global permitiu-nos mostrar que a manualidade, a narrativa e a singularidade continuam a ter um lugar relevante, independentemente da escala ou do mercado em que se inserem.

 

Quando olham para o futuro, que projectos, marcas ou territórios criativos gostariam ainda de explorar?

O que mais nos entusiasma no futuro não é, necessariamente, um nome específico, mas a possibilidade de continuar a expandir as formas de contar histórias.

Gostaríamos de aprofundar projectos de maior escala, explorar novas geografias e desenvolver colaborações que nos desafiem a olhar para os nossos temas de maneiras inesperadas.  Interessa-nos continuar a trabalhar entre a arte, o design, a arquitectura, a hotelaria e os espaços culturais, criando experiências imersivas que envolvam diferentes disciplinas.

Acima de tudo, queremos manter acesa a mesma chama que esteve na origem da Oficina Marques: a vontade de criar, de experimentar e de celebrar a vida através dos materiais, das pessoas e das histórias que cruzam o nosso caminho.